5 de maio, 2026

Eliza Conde, Herança Fashion

Heloisa Helena, Maximiliano & Manuela vestem Eliza Conde

Fotografado por joão MM

“Leva, leva Manu. Eu não tenho mais tempo de vida para usar tudo isso.”

É o que a minha vó fala toda vez que demonstro interesse por alguma peça dela. 

Agradeço, levo, uso e fico feliz em falar de onde veio quando elogiam ou comentam sobre. 

A verdade é que provavelmente teria tempo para usar o guarda-roupa inteiro. Não tem doença, apenas ossos de porcelana, um aparelho auditivo que parece funcionar de forma seletiva e digestão frágil. É por falta de vontade mesmo. No dia a dia, varia entre poucas peças. Calças de tecido molinho, camisetas largas, cardigans, vestidos estilo bata e sandálias ortopédicas. Pedi para ela usar alpargatas no dia do ensaio. Prioriza conforto acima de tudo.

Não foi sempre assim. Quando seu marido era vivo, estava quase sempre arrumada. Ela combinava com ele por carinho. Pepe é o homem mais elegante que já tive o prazer de conhecer. E quando se foi, a maneira de me vestir automáticamente se tornou mais refinada. Como se quisesse manter o legado do seu estilo bem-posto. A esposa foi pelo caminho contrário, abraçando a total casualidade cotidiana, resguardando produções somente para eventos especiais.

Seu nome é Heloisa Helena. Cearense. Veio morar no Rio muito cedo. Pintora. Aquarelas. Escritora. Descobriu a costura há quatro anos. A sala de jantar virou um ateliê bagunçado, cheio de tecidos e tintas. 

Heloisa tem uma neta e um neto, o Maximiliano. Meu irmão, pouco mais velho. Artista, principalmente. Canta bem. Gosta de distorcer a voz com autotune. Faz música do começo ao fim. Acabou de não ter o contrato renovado na sua posição de recepcionista em um hotel em Copacabana. Não encaixava perfeitamente ao perfil. Admito que fiquei feliz. Me tornei sua agente oficial. Ele é talentoso porém desorganizado. Nos complementamos. Podem aguardar de pé pelas cenas desse novo capítulo. 

Ele se veste como a maior parte dos homens, olhando de longe. De pertinho, se percebe que a abordagem é, de fato, autêntica. Com dedo nervoso no Enjoei, plataforma de compra e venda de produtos de segunda mão, seus looks nunca parecem fabricados. Recentemente contou que jamais faria uma contraproposta para pagar mais barato em uma peça. Se o preço é aquele e amou, não tem discussão. Achei louvável essa abordagem anti-barganhativa. Estamos muito acostumados a questionar os preços das coisas e a principalmente querer sempre pagar o mínimo possível.

Nós três amamos moda.

Eliza Conde ama moda como prática de observação. Vindo do comportamento das pessoas e daí se desenvolvendo em estéticas a serem analisadas. 

“Sempre fui curiosa em relação à moda,” Eliza conta, “gostava de comprar tecidos, de fazer peças, de imaginar as roupas.” Criava para ela mesma, “não pensava em nada além do meu próprio desejo.” A fundadora e estilista da marca homônima, de quase 30 anos de trajetória no mercado, relembra se interessar cada vez mais no assunto, e então mergulhar de cabeça: se mudou para a Itália e fez curso especializado. “Trabalhei em uma outra marca muito bacana, aprendi sobre os bastidores, a fábrica, como acontecia tudo,” essas experiências moldaram o caminho que traçou com o seu próprio nome e visão criativa. 

Suas coleções apresentam “o que está me dando vontade, o que estou prestando atenção,” relata em um suspiro. Adiciona, “a gente começa a prestar atenção numa coisa e quando você vê aquilo já estava rolando num inconsciente coletivo, você achava que era só você que estava percebendo aquilo, mas não é assim.” Portanto, mesmo produzindo edições totalmente guiadas pelo profundo subjetivo, acaba incluindo aspirações fashionistas de várias pessoas, exatamente por estar exposta e absorvendo coisas que acontecem diante dos olhos de muita gente. 

No editorial, as peças da sua marca são portadas com naturalidade por todos que modelam. Seus produtos vestem maravilhosamente bem pessoas em qualquer momento da vida que estejam. “Não é intencional,” continua, “mas tem a ver comigo.” E.C. pontua que sua camisaria e várias calças são peças indiscutivelmente não datadas. “Quando você faz uma roupa mais atemporal, ela cabe para diversas faixas etárias e estilos, não fica fechada.” Valoriza essa abertura, como se fosse um constante fluxo de ar de dentro para fora de seu ateliê. 

O desfile no Fashion Rio da coleção Primavera Verão 2009 poderia tranquilamente ter acontecido no Rio Fashion Week, em abril desse ano. Hoje, a leitura seria de referências aos anos dois mil, com uma pegada nostálgica, que é relevante na forma como nos vestimos atualmente. O sutiã adornado e exposto com um casaquinho manga ¾, saia tubinho franzida e salto alto. Vestido solto com cintão de franja acinturando, criando nova forma. Bordados de flores brilhantes. Calça branca com detalhes localizados na boca de sino. O contraste entre uma peça simples com um elemento surpresa que não é óbvio que funciona. Vestido mini com drapeado e desconstrução. Coletinho de cetim com o sutiã à mostra. Rabo de cavalo imperfeito e maquiagem que destaca os olhos. 

Sobre fazer desfiles, descreveu “é legal quando você vê tudo junto, te dá muita noção do seu trabalho.” O Rio está sendo reinserido no mapa da Moda, com “m” maiúsculo. “Acho super legal a volta do Rio Fashion Week,” me dei a liberdade de expressar que tenho esperanças que o movimento vingue.

“Tomara,” concordou.

Ao perguntar sobre as marcas que acompanha e gosta do trabalho, a primeira a mencionar foi a Osklen, “como marca nacional, acho que eles sempre tem uma coisa bacana.” Globalmente, mencionou  Johanna Ortiz, da Colômbia, e a casa italiana Valentino. 

Eliza também valoriza peças que são passadas adiante por gerações, “eu tenho algumas poucas peças da minha mãe, mais casacos de viagem, que são peças que duram.” O favorito é um Issey Miyake. “Tenho várias coisas que dei pras minhas sobrinhas, que elas adoram.”

O conceito por trás do mais recente lançamento, Inverno 26, surgiu durante a visita à exposição Pinturas Nômades da artista plástica Beatriz Milhazes. “Tinha um balcão grandão com um monte de tecidos, tecidos remendados com diferentes texturas, parecia uma tapeçaria com diferentes bordados. Aí eu olhei e pensei, olha que engraçado, isso aqui parece com uma coisa que eu venho fazendo, como se fosse uma colcha de retalho, trazendo coisas de várias coleções.” Percebeu que aquilo representava o momento que estava vivendo e começou a pesquisar.

Daí nasceu Nômade, pensado para a “mulher que gosta de catar coisas, ela vai colecionando, gosta dos bordados das texturas, dos tecidos, e vai misturando.”  Com as peças da coleção se monta uma perfeita mala de viagem para uma pessoa estilosa, vaidosa, prática e dinâmica. Os broches bordados transformam a peça mais básica em uma vestimenta cheia de intencionalidade. A jaqueta Berlin combina com tudo, não paro de pensar nela desde que a vi pela primeira vez, aliás. Sandália de plataforma confortável que combina com o veludo da bolsa, que usa cruzada para ter as mãos livres. Camisa London me parece algo que JW Anderson usaria. A estampa estrela e a quadriculada me remetem à estética do circo, itinerante e querendo impressionar.

Desenho do Max. Mini aquarelas cariocas da Heloisa, junto ao retrato de não sei quando nem onde. Escolhi pela camisa.

Ensaio foi fotografado no último dia de janeiro de dois mil e vinte e seis 

Escute música do Max, seu nome artístico musical é Ednas. Lançou EP chamado e 

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